Sustentabilidade em cemitérios: o que muda na gestão e no modelo de negócio do setor funerário

Tiago Oliva Schietti
Tiago Oliva Schietti

A cremação consolidou-se como uma das modalidades funerárias de maior crescimento no Brasil, e Tiago Oliva Schietti acompanha esse movimento com atenção às suas implicações ambientais, operacionais e culturais. 

A sustentabilidade deixou de ser pauta periférica no mercado funerário brasileiro. Com o avanço do debate ambiental na sociedade e a pressão crescente de consumidores mais conscientes, cemitérios e funerárias passaram a ser avaliados não apenas pela qualidade do atendimento no momento do luto, mas também pelo impacto que suas operações causam ao meio ambiente. Para o setor, essa mudança de expectativa representa tanto um desafio de gestão quanto uma oportunidade concreta de diferenciação.

Neste artigo, você vai entender o que está por trás da virada sustentável no setor cemiterial e o que ela exige das empresas que pretendem se manter relevantes.

Cemitério-parque como modelo de transição

O modelo de cemitério-parque ganhou força no Brasil nas últimas duas décadas como uma resposta parcial às críticas ambientais e ao desejo das famílias por espaços mais acolhedores. Integrados a projetos paisagísticos com vegetação nativa, trilhas, lagos e áreas de convivência, esses cemitérios transformam o espaço de memória em ambiente naturalizado, reduzindo a percepção de segregação entre o cemitério e o entorno urbano.

Conforme destaca Tiago Oliva Schietti, empresário do setor cemiterial e funerário, o cemitério-parque não resolve sozinho a questão da sustentabilidade, mas representa um passo relevante na direção de operações menos impactantes. A substituição de lápides convencionais por placas rasas ao nível do solo, por exemplo, facilita a mecanização da manutenção e reduz o consumo de água e defensivos químicos. A introdução de espécies nativas no paisagismo diminui a necessidade de irrigação artificial e contribui para a biodiversidade local.

Sepultamento natural e novas modalidades ecológicas

A fronteira mais avançada da sustentabilidade funerária está nas chamadas modalidades de sepultamento natural, ainda incipientes no Brasil mas com crescimento acelerado em países como Estados Unidos, Reino Unido e Holanda. Nessas práticas, o corpo é preparado sem embalsamamento químico e depositado diretamente no solo, em biodegradável, acelerando o processo de retorno à terra sem contaminantes.

Nos Estados Unidos, o movimento dos green burials já conta com mais de 300 cemitérios certificados pela Green Burial Council, e pesquisas de opinião recentes indicam que cerca de 60% dos americanos considerariam uma opção de sepultamento ecológico para si mesmos. No Brasil, a regulamentação ainda não contempla essas modalidades de forma clara, mas o debate já chegou a associações do setor e a grupos de pesquisa em direito funerário.

Tiago Oliva Schietti
Tiago Oliva Schietti

Na avaliação de Tiago Oliva Schietti, a adoção de novas modalidades no mercado brasileiro depende de um alinhamento entre mudança cultural, atualização legislativa e capacitação técnica das equipes. A introdução precipitada de práticas sem respaldo regulatório pode gerar insegurança jurídica tanto para as empresas quanto para as famílias.

Gestão ambiental como vantagem competitiva

Além das modalidades de sepultamento, a sustentabilidade no setor funerário abrange decisões de gestão que impactam diretamente a operação cotidiana dos cemitérios. Captação e reuso de água pluvial, geração de energia solar para abastecimento das instalações, gestão de resíduos sólidos provenientes de flores, embalagens e materiais de manutenção, e uso de produtos de limpeza biodegradáveis são práticas que já integram o planejamento de cemitérios comprometidos com a redução de sua pegada ambiental.

Empresas que documentam e comunicam essas práticas de forma transparente constroem um ativo reputacional relevante em um mercado onde a confiança é insubstituível. As famílias que valorizam responsabilidade ambiental tendem a perceber esses diferenciais no momento de escolha, especialmente nas faixas de consumo mais jovens, que chegam ao mercado funerário como contratantes de planos antecipados ou tomadores de decisão em casos de falecimento de familiares, ressalta Tiago Oliva Schietti.

O papel das certificações e da regulação ambiental

O avanço da pauta sustentável no setor funerário brasileiro passa, inevitavelmente, pela construção de critérios técnicos e certificações que orientem tanto as empresas quanto os consumidores. A Acembra tem desempenhado papel relevante nesse processo, promovendo debates, publicando diretrizes e articulando o setor em torno de boas práticas que possam ser adotadas de forma gradual e consistente.

A regulação ambiental aplicada a cemitérios ainda é fragmentada no Brasil, com normas esparsas da ABNT, do Conselho Nacional do Meio Ambiente e de legislações estaduais que nem sempre dialogam entre si. A construção de um marco mais coeso, que oriente a operação sustentável sem inviabilizar economicamente os empreendimentos, é uma das demandas centrais do setor para os próximos anos.

A sustentabilidade no mercado funerário não é tendência passageira. É uma reorientação estrutural que chegou para redefinir o que se espera de um cemitério moderno e de uma funerária responsável. Conforme reforça Tiago Oliva Schietti, o setor que compreender essa transição como oportunidade, e não como ônus, estará mais preparado para oferecer um serviço que respeite, a um só tempo, a dor das famílias e o ambiente que as cerca.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez