Transformações no crédito brasileiro: o que você precisa saber agora!

Pedro Daniel Magalhães
Pedro Daniel Magalhães

Um dado ajuda a dimensionar a velocidade dessa transformação: as fintechs de crédito somaram, no último ano, quase 95 milhões de clientes pessoa física no Brasil, um crescimento superior a 40% em relação ao período anterior, com o segmento de empresas avançando 30% no mesmo intervalo, nota Pedro Daniel Magalhães, executivo com atuação em finanças e evolução do mercado de crédito. Poucos setores da economia brasileira mudaram tanto de formato em tão pouco tempo quanto o crédito, e entender essa trajetória recente ajuda o empresário a se situar em um mercado que já não funciona como há uma década.

Da dependência bancária à fragmentação do sistema

Até pouco tempo atrás, buscar crédito significava, na prática, recorrer a um punhado de grandes bancos, cada um com seus próprios critérios de análise e pouca interoperabilidade entre si. Esse modelo concentrado começou a se romper com a chegada de fintechs de crédito digital, que ocuparam espaços deixados pela banca tradicional, especialmente entre microempresas e consumidores que tinham dificuldade de comprovar histórico financeiro consistente.

Como pondera Pedro Daniel Magalhães, essa fragmentação trouxe benefícios reais de acesso, mas também criou um sistema mais heterogêneo, no qual condições de crédito passaram a variar muito mais entre instituições do que variavam quando o mercado era dominado por poucos grandes players.

A mudança no perfil das garantias exigidas

Um dos sinais mais claros dessa evolução está na composição da oferta de crédito. Produtos sem garantia, que respondiam pela maior parte do crédito ofertado por fintechs há alguns anos, hoje representam fatia bem menor da carteira, substituídos por operações lastreadas em recebíveis, garantias reais ou dados de comportamento financeiro obtidos via Open Finance.

Pedro Daniel Magalhães
Pedro Daniel Magalhães

Esse movimento reflete um mercado que amadureceu, migrando de um modelo de crescimento agressivo baseado em risco elevado para um modelo mais criterioso, baseado em dados verificáveis. A expansão recente das fintechs, aliás, veio majoritariamente do aprofundamento de operações já existentes, não do lançamento de produtos inéditos, o que reforça essa leitura de amadurecimento em vez de expansão especulativa.

A entrada da inteligência artificial nos motores de decisão

A forma como o crédito é concedido também mudou de natureza, indica o executivo e advisory da área financeira, Pedro Daniel Magalhães. Motores de decisão baseados apenas em regras cadastrais e histórico em birôs tradicionais vêm sendo substituídos por arquiteturas que incorporam inteligência artificial, dados comportamentais e integração com o Open Finance, permitindo decisões mais rápidas e, em tese, mais precisas sobre o risco de cada operação.

Essa camada tecnológica é o que efetivamente separa o mercado de crédito atual do que existia há uma década: não se trata apenas de digitalizar um processo que antes era manual, mas de reconstruir a própria lógica de avaliação de risco a partir de uma base de dados muito mais ampla do que qualquer banco conseguia acessar isoladamente.

Um sistema de duas velocidades

Nem todo esse avanço se traduziu em crédito mais barato para todos. O mercado brasileiro entra neste momento em um cenário descrito por especialistas do setor como de duas velocidades: de um lado, nichos específicos, geralmente empresas maiores ou com dados financeiros bem organizados, acessam crédito mais ágil e tecnicamente sofisticado; de outro, a maioria segue enfrentando juros altos e critérios mais restritivos.

Pequenos negócios e famílias de menor renda, segundo análises recentes sobre o tema, continuam mais expostos a esse lado menos favorecido da equação, o que mostra que digitalização e inovação tecnológica não resolvem, sozinhas, o problema histórico de acesso desigual ao crédito no país.

O que essa trajetória sinaliza para os próximos anos?

A tendência é que a diferenciação entre empresas bem organizadas financeiramente e empresas com dados dispersos se aprofunde ainda mais, à medida que motores de decisão baseados em dados ganham espaço sobre os modelos tradicionais de análise. Conforme conclui Pedro Daniel Magalhães, o recado prático para quem administra uma empresa é claro: organizar dados financeiros e manter histórico consistente deixou de ser boa prática opcional e passou a ser vantagem competitiva direta no acesso a crédito.

Acompanhar de perto essas mudanças, mais do que reagir a elas quando já estiverem consolidadas, é o que tende a separar empresas que conseguem se beneficiar dessa nova fase do crédito brasileiro daquelas que seguem presas a um modelo de acesso cada vez mais restrito.