De que maneira o livro provoca uma reflexão sobre a construção da memória?

Alfredo Moreira Filho
Alfredo Moreira Filho

Um telefone fixo tocou no escritório de uma casa em Manaus, numa tarde de setembro. Do outro lado, um antigo colega falava de Brasília sobre um projeto de colonização agrícola no sul do Pará. A conversa durou pouco mais de dez minutos e mudou o endereço de uma família inteira. O episódio está em “Pequenas Histórias e Algumas Percepções”, livro autobiográfico do empresário Alfredo Moreira Filho, fundador do Grupo Valore+.

Histórias desse tipo raramente são interessantes pelo final. Interessa a repetição que se dá em quase todo caminho longo: uma decisão sem informação, uma perda que não estava nos planos e um recomeço que deve fazer uso do que resta.

Escolher quando o ambiente deixou de oferecer futuro

A saída do Amazonas não foi voluntária no sentido confortável da palavra. Depois de uma aposta política malsucedida na eleição estadual, começaram a chegar telegramas avisando que seu tempo por ali havia terminado. Os negócios privados no setor agropecuário também tinham perdido fôlego.

O detalhe decisivo é outro. O engenheiro agrônomo já morava há mais de uma década no estado, tinha casa, amigos e a família da esposa por perto. Nada disso alterava o diagnóstico. Reconhecer que um lugar confortável parou de abrir portas costuma ser mais difícil do que sair de um lugar ruim, e é essa leitura que o livro registra com data e circunstância.

A perda que nenhum currículo menciona

Anos depois, já em Brasília e atuando na construção pesada, veio um episódio de sinal contrário. A empresa selecionará um grupo de executivos para um programa de MBA numa universidade paulista, sinal claro de que os escolhidos faziam parte dos planos futuros. Pouco depois, uma nova diretoria assumiu e dispensou quase toda a equipe local. O aviso chegou por telefone.

Perda, num relato de vida, quase nunca é só luto. É posição encerrada, projeto interrompido, cidade deixada para trás. São eventos que o resumo profissional apaga, porque ele registra apenas o que deu certo, e que o texto autobiográfico consegue devolver ao lugar devido.

Recomeço não significa recomeçar do zero

Cada retomada aproveitou algo já construído. A experiência de gestão em órgãos públicos amazônicos foi o que credenciou Alfredo Moreira para o projeto no Pará. A convivência com obras e contratos abriu a etapa seguinte em Brasília. Mais tarde, o negócio de serviços de tecnologia nasceu de uma ideia do filho, com a filha entrando na sequência.

Quem lê apenas o resultado final enxerga sorte. Quem lê a sequência inteira enxerga transferência de repertório. É diferença relevante para qualquer pessoa que esteja avaliando uma virada de rumo.

O intervalo entre uma coisa e outra é a parte instrutiva

Existe um trecho pouco glamouroso em toda mudança: o tempo em que a decisão já foi tomada e ainda não produziu resultado. Aos vinte anos, à espera de uma vaga em agronomia, o autor voltou à casa dos pais e deu aulas como professor substituto no colégio da irmã.

Não era o plano. Era o que mantinha o vínculo com os livros até a chance aparecer. Nos relatos de vida, esses intervalos aparecem encurtados por generosidade da memória, quando na prática duraram meses ou anos. Ler um livro que os preserva ajuda quem está justamente ali, no meio do próprio intervalo.

O que uma vida contada por episódios oferece?

Autobiografia costuma ser lida como balanço fechado, com o fim conhecido desde a primeira página. Só que quem viveu aquilo não sabia o fim, e é essa ignorância compartilhada que torna o gênero útil.

O leitor não busca ali uma fórmula. Busca reconhecer a própria situação em outra escala e verificar como alguém agiu quando o cenário ainda estava aberto. Ao dispor lado a lado as escolhas, as perdas e as retomadas, sem tratar nenhuma como inevitável, Alfredo Moreira Filho deixou registrado um percurso que pode ser comparado, discutido e, se for o caso, contestado.