Governador defendeu modelo de concessões na Assembleia Legislativa, mas deputados questionaram tarifas, obras não cumpridas e o esvaziamento da licitação.
Por que nenhuma empresa se interessou em assumir o Bloco 2 de rodovias do Rio Grande do Sul? Essa pergunta motivou um dos depoimentos mais aguardados da política gaúcha nos últimos meses: a ida do governador Eduardo Leite à CPI dos Pedágios, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. A sessão, realizada em 8 de junho, reuniu deputados de diferentes partidos em torno de um tema que afeta diretamente o bolso de motoristas, caminhoneiros e estudantes que dependem das estradas estaduais. O governador defendeu o modelo de concessões como única alternativa viável diante da falta de recursos públicos, enquanto parlamentares da oposição cobraram explicações sobre tarifas elevadas, obras não executadas e o fracasso da licitação.
O caso ganhou ainda mais relevância porque o depoimento ocorreu poucos dias depois de a licitação do Bloco 2 ser cancelada por completa ausência de interessados, um desfecho raro para uma concessão rodoviária estadual. Entender os argumentos apresentados pelo governo e pela oposição ajuda o leitor gaúcho a compreender o que está em jogo no modelo de concessões adotado pelo estado e como isso pode impactar o preço dos pedágios nos próximos anos.
O que Eduardo Leite disse sobre o fracasso do leilão
Durante a sessão na Assembleia Legislativa, o governador manteve a defesa do modelo de concessões como caminho necessário para modernizar a malha rodoviária gaúcha. Segundo reportagem da Rádio Pampa, Eduardo Leite atribuiu o esvaziamento do leilão de rodovias do Bloco 2 a uma combinação de precificação apertada das obras no edital, que reduziu a margem para suportar riscos, e ao “ambiente político hostil” criado por lideranças locais. A explicação, no entanto, não convenceu boa parte dos deputados presentes, que reforçaram que o problema estaria na própria modelagem econômica do contrato, e não em fatores externos. Rádio Pampa
A reportagem da Rádio Caiçara detalha que, durante o depoimento, Leite reafirmou que manterá a defesa dos projetos de concessão rodoviária dos blocos 1 e 2 até o fim de sua gestão, justificando a necessidade do repasse das estradas à iniciativa privada pela falta de capacidade financeira do Estado para arcar com os investimentos demandados na infraestrutura. Diante das cobranças sobre o leilão deserto, o governador também citou previsões climáticas como fator que teria afastado interessados, além do impacto político gerado pela própria CPI. Sob pressão do presidente do colegiado, deputado Paparico Bacchi (PL), para responder a todos os questionamentos, Leite frisou sua condição de convidado não convocado e criticou o que considerou um desvio do escopo investigativo da comissão. A postura do governador, no entanto, repercutiu mal entre os parlamentares: ao final da sessão, segundo a mesma reportagem, houve uma tentativa de entregar a Leite um projeto de lei em mãos, mas o chefe do Executivo gaúcho deixou o local sem receber a proposta. Radiocaicara + 2
As críticas da oposição sobre tarifas e obras não cumpridas
Do outro lado do debate, deputados da CPI apresentaram dados específicos para sustentar suas críticas ao modelo de concessões. Segundo reportagem da bancada do PT na Assembleia, o relator da comissão, deputado Miguel Rossetto, cobrou explicações sobre o fracasso do Bloco 3 de concessões, que abrange a Serra e o Vale do Caí, os altos valores previstos para as tarifas e a falta de obras, além de levantar dúvidas sobre a transparência dos estudos técnicos e os impactos econômicos dos pedágios para usuários e setores produtivos. Rossetto também apresentou uma comparação direta para ilustrar o impacto das tarifas propostas: segundo ele, pela proposta do governo Leite, um estudante ou trabalhador que sai de Sapiranga e hoje paga R$ 6,50 para estudar ou trabalhar passará a desembolsar R$ 20. PT Assembleia RSPT Assembleia RS
Outro deputado que questionou diretamente o governador foi Halley Lino, que afirmou que Eduardo Leite deveria agradecer à Assembleia Legislativa por ter impedido a concretização de “um péssimo negócio”, criticando o sistema de cobrança free flow, que segundo o parlamentar resultou em milhares de multas para motoristas gaúchos. Já o deputado Pepe Vargas (PT) destacou o caso específico do Bloco 3, na Serra Gaúcha, como evidência dos problemas do modelo. Segundo reportagem da bancada do PT, Pepe afirmou que a concessionária responsável pelo trecho já recebeu quatro reajustes tarifários, mas não cumpriu as obras previstas em contrato, alegando que “já deveria ter entregue 55 quilômetros de duplicações e não entregou um único quilômetro”. A deputada Sofia Cavedon, por sua vez, contestou os argumentos do governador sobre a gestão das finanças estaduais, lembrando que o atual governo apresentou uma Lei de Diretrizes Orçamentárias com déficit de R$ 4,8 bilhões e conduziu uma renegociação do Regime de Recuperação Fiscal considerada prejudicial ao Rio Grande do Sul. PT Assembleia RS + 2
O que pode acontecer com os pedágios a partir de agora
Com o depoimento concluído, a CPI dos Pedágios segue investigando os contratos das concessões rodoviárias dos blocos 1, 2 e 3 do programa estadual de concessões. Conforme detalhou a Rádio Sideral antes da audiência, a comissão analisa estudos técnicos, modelagem econômica, processos licitatórios, critérios tarifários, mecanismos de fiscalização e a atuação dos órgãos responsáveis pelo acompanhamento dos contratos. As investigações abrangem três frentes: o Bloco 1, que reúne rodovias da Serra, do Litoral Norte e da Região Metropolitana de Porto Alegre; o Bloco 2, que contempla rodovias do Vale do Taquari e do Norte do Estado; e o Bloco 3, correspondente às rodovias concedidas à concessionária Caminhos da Serra Gaúcha, na Serra Gaúcha e no Vale do Caí. Grupo SideralGrupo Sideral
Uma proposta concreta também surgiu durante a sessão com o governador. O deputado Paparico Bacchi (PL), presidente da CPI, apresentou um projeto de lei para criar o Fundo Estadual de Infraestrutura Rodoviária. De acordo com a Rádio Pampa, a proposta visa instituir uma fonte permanente de recursos vinculada ao DAER para a conservação, duplicação e modernização das rodovias estaduais, abastecida por 3% da arrecadação líquida do ICMS sobre combustíveis e lubrificantes. A ideia é apresentada como alternativa ao modelo de concessões, buscando viabilizar investimentos públicos sem depender de pedágios considerados abusivos pela oposição. O texto ainda precisa passar pela distribuição nas comissões da Assembleia Legislativa antes de qualquer votação, o que significa que o debate sobre o futuro das rodovias gaúchas deve continuar nos próximos meses, especialmente enquanto o governo avalia os próximos passos para o Bloco 2. Rádio Pampa
O episódio da CPI dos Pedágios expõe uma divisão clara entre o discurso do governo estadual e as críticas da oposição sobre o modelo de concessões rodoviárias no Rio Grande do Sul. Enquanto o Palácio Piratini insiste que a parceria com a iniciativa privada é a única forma de viabilizar obras de grande porte em prazo razoável, parlamentares contrários ao modelo defendem que tarifas elevadas e contratos não cumpridos comprometem o benefício para a população. O desfecho dessa disputa deve influenciar diretamente o valor que motoristas e trabalhadores gaúchos pagarão nas estradas estaduais nos próximos anos, tornando o acompanhamento da CPI um tema relevante para quem depende da malha viária do Rio Grande do Sul.
Fontes consultadas:
- https://ptassembleiars.org.br/2026/06/08/bancada-do-pt-questiona-fracasso-dos-leiloes-altas-tarifas-e-ausencia-de-obras-nas-concessoes-em-depoimento-de-eduardo-leite/
- https://ptassembleiars.org.br/2026/06/09/pepe-critica-modelo-de-concessoes-durante-depoimento-de-leite-na-cpi-dos-pedagios/
- https://www.radiosideral.com.br/post/governador-eduardo-leite-prestar%C3%A1-depoimento-na-cpi-dos-ped%C3%A1gios-em-8-de-junho
- https://www.radiocaicara.com.br/cpi-dos-pedagios-deputado-propoe-fundo-para-custear-obras-em-rodovias-do-rs/
- https://www.radiopampa.com.br/eduardo-leite-confirma-presenca-na-cpi-dos-pedagios-da-assembleia-legislativa/
- https://www.radiopampa.com.br/cpi-dos-pedagios-deputado-propoe-fundo-para-custear-obras-em-rodovias-do-rs/
Autor: Diego Rodríguez Velázquez









